O uso da rede elétrica para o serviço de banda larga deve estar regulamentado até o final deste primeiro semestre, mas a oferta comercial depende, naturalmente, da viabilidade e dos custos do sistema. A existência da rede instalada é, por si, um ganho, uma vez que a rede de energia abrange cerca de 97% do país.
A baixa qualidade da rede elétrica no Brasil, porém, é o ponto fraco do sistema, segundo o secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Rogério Santanna."A questão é sempre a viabilidade e a eficiência. No caso do Brasil, onde as redes elétricas são de baixa qualidade, há uma implicação de custos. Uma rede de melhor qualidade precisa de menos repetidores", avalia.
E o custo dos equipamentos necessários para viabilizar o sistema, segundo Santanna, é uma incógnita. "Sempre foi uma alternativa promissora, mas nunca vi um estudo de custo viável, a não ser em baixa tensão, com equipamentos vendidos nos Estados Unidos por US$ 50", conta.
Ou seja, pode-se imaginar que modems para a rede elétrica a US$ 50 sejam acessíveis aos internautas residenciais, mas a dúvida é se o sistema como um todo se viabiliza com custos competitivos. "Pode ser viável no centro de São Paulo, por exemplo, onde os custos de se abrir uma vala para instalar uma rede de fibra ótica não são atrativos. Aí você usaria a rede elétrica nesse trecho", explica Rogério Santanna.
No mais, ele acredita que o principal interesse das distribuidoras de energia está no uso interno, uma vez que a tecnologia de banda larga pela rede elétrica pode se transformar num importante instrumento para a redução de perdas, em especial como combate aos "gatos" na rede, responsáveis por um prejuízo anual superior a R$ 5 bilhões para as empresas.
"Os fiscais não precisariam mais ir até o local do gato para cancelar o fornecimento de energia. Sem contar que cai o custo de medição, que pode ser feito de forma remota e sem a necessidade de grandes equipes para isso", diz o secretário de Logística e Tecnologia da Informação.
É este, inclusive, um dos principais pontos indicados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) na nota técnica que tratou do assunto em preparação para a audiência pública - aberta até o fim de maio - que discute a regulamentação do tema pelo órgão.
"Além dos serviços de internet banda larga, voz e vídeo para os consumidores, o PLC permite que as distribuidoras de energia elétrica possam incorporar serviços de telemedição, supervisão do fornecimento e da qualidade da energia, controle das perdas técnicas e comerciais, monitoração remota de suas redes de distribuição, podendo resultar, inclusive, em menores investimentos na geração de energia", sustenta a nota técnica da Aneel.
Smartgrid: Uma discussão mundial
O uso da rede elétrica para transmissão de dados, com a opção do serviço de banda larga Internet, é uma discussão que mobiliza a comunidade internacional. Como lembra Carlos Alberto Mattar, especialista em regulação e assessor da Superintendência de Regulação dos Serviços de Distribuição da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o tema é um dos pontos do pacote de recuperação da economia norte-americana contra a crise financeira.
"Nos recursos programados pelo novo presidente dos EUA, Barack Obama, para estimular a economia, há dinheiro para a rede automatizada, também chamada de smartgrid. Só para mostrar como isso não é um assunto exclusivo do Brasil", diz Mattar.
Por aqui, o uso complementar da rede elétrica é alavancado por algumas distribuidoras de energia, as quais têm investido recursos de pesquisa e desenvolvimento em projetos como é o caso da Copel, no Paraná, e da Eletropaulo, em São Paulo, que criaram subsidiárias específicas para explorar a oferta de infraestrutura para o serviço banda larga pela rede elétrica.
"O mercado vê duas possibilidades de negócio. A primeira, naturalmente, é o uso do monitoramento remoto, porque além da confiabilidade, há ganho em redução de custos. É possível sabe onde há furto de energia pelo controle do transformador. As perdas de energia são muito grandes no país. Em Manaus, por exemplo, chegam a 40%", explica.
Já o uso comercial, segundo Mattar ainda em fase embrionária, também tem tudo para deslanchar. "É evidente que há interesse das distribuidoras nesse mercado. Senão, empresas como a Eletropaulo e a Copel não teriam montado subsidiárias. Elas usariam apenas os benefícios de monitoramento", completa o especialista.
O diferencial está, é claro, no modelo de negócio que será aplicado. A Eletropaulo já avisou que não venderá serviços diretamente para o consumidor final. Já a Copel, tem como meta também ser um provedor de banda larga - chegando ao consumidor.