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OPINIÃO

A regra não é clara? Isso não pode nos paralisar

Por Luiz Alexandre Garcia*
20/07/2020 ... Convergência Digital

Nos últimos meses, desde a eclosão da pandemia de Covid-19, temos acompanhado diariamente as notícias sobre a doença. O avanço do coronavírus pelo país deixou em todos a sensação de que ele está à espreita, e o instinto de sobrevivência faz dessa percepção um gatilho para ansiedade, medo e insegurança. Além da preocupação com a saúde, mudanças importantes estabelecidas pela nova rotina de isolamento social também causaram grande inquietação.

Milhares de profissionais migraram para o home office de maneira repentina e, para muita gente, inicialmente parecia impossível assegurar que o trabalho continuasse acontecendo de maneira produtiva em meio a essa situação. Passados alguns meses, no entanto, o que temos visto é justamente o contrário: o trabalhado remoto tem gerado grande valor para muitas pessoas e empresas. A questão do home office é um exemplo de que, ainda que estejamos vivendo algo completamente diferente do que conhecíamos até aqui, as novas experiências podem sim apontar para um cenário positivo de transformação. Por isso, recebo este novo momento com otimismo a partir de quatro percepções pessoais:

Ter sido obrigado a trabalhar de casa de uma hora para outra causou desconforto para a maioria das pessoas. Nem elas, nem as empresas, nem as famílias ou mesmo o ambiente doméstico estavam preparados para isso. Mas observe a si mesmo e a seus pares agora, passados quatro meses do susto inicial. Ouço mais avaliações positivas do que negativas de quem teve a possibilidade de trabalhar em home office – convenhamos, um privilégio que não se estende a todas as atividades econômicas. Essas pessoas não querem mais voltar integralmente à rotina que tinham antes. Aos poucos, desenvolvemos tolerância, e virou regra um maior nível de informalidade – com limites, é claro. É preciso que aceitemos essa nova realidade, e que nos adaptemos a ela.

O home office – ou melhor, o anywhere office, já que o escritório não precisa ficar restrito às quatro paredes da casa – exige um grau elevado disciplina. E de ética também. O mundo do trabalho está entrando em uma fase em que empresas e colaboradores precisarão aprender juntos sobre demandas e limites. Em um sistema em que o trabalho é realizado de qualquer lugar e, muitas vezes, a qualquer horário, os profissionais se tornam muito mais responsáveis pela sua autogestão. Se estou em um momento criativo, faz sentido interrompê-lo porque a jornada terminou?

Ao mesmo tempo, as lideranças precisam atentar para o seu próprio papel, permitindo que todos tenham clareza sobre o que é trabalho e o que é vida pessoal. Em outras palavras, o modelo desencadeado pela pandemia de coronavírus representa uma quebra de paradigma que exige que todos assumam suas responsabilidades, com respeito ao próximo e muito comprometimento.

A regra não é clara? Isso não deveria nos paralisar

Venho de um setor – a telefonia – altamente regulado. É também um segmento em que a inovação é uma constante. Estou habituado a ver novas soluções inovadoras, com potencial transformador, irem para a gaveta porque o assunto carece de regulamentação. Muitas vezes, essa burocracia atrasa desenvolvimentos importantes. Essa é uma boa analogia para o que estamos vivendo atualmente no mundo do trabalho.

Nem todas as regras e os modelos estão já colocados. Afinal, embora houvesse progresso regulatório acontecendo em relação ao trabalho remoto, por exemplo, a implementação generalizada e repentina apresentou para os negócios desafios sobre os quais poucos haviam pensado até então. Sim, isso causa insegurança, mas não deveria ser motivo para nos paralisar.

Impedir os funcionários de trabalhar em esquema de home office porque não existem regras para todas as situações possíveis seria ruim para todo mundo. Parto do princípio de que momentos de transformação profunda deveriam abrir margem para regulamentação "ex-post". Ou seja, nesses casos, o detalhamento e o aprendizado de normas e condutas necessariamente acontece durante o processo. Ajustes e revisões, naturalmente, ocorrerão. Mas não há nada errado em dar um passo atrás mais tarde, para reavaliar o que foi feito, desde que se estivesse perseguindo um bem maior.

Alguns negócios em especial estão sentindo o baque da pandemia com mais força do que outros. O turismo, a alimentação em algum grau e o comércio em geral – e a cadeia que depende deles todos – se encontram em uma situação delicada. E pior: não sabemos exatamente quando ela vai terminar. Eu me solidarizo com esses empreendedores. Ao mesmo tempo, encaro esse momento como um convite a repensar certas práticas. Muitos desses negócios ainda estão vivendo no "modo emergência", mas talvez já seja a hora de ativar o "modo nova vida".

Se ainda temos pelo menos alguns meses de pandemia pela frente, que sejam meses produtivos. Precisamos estar dispostos a aprender o que é preciso para sobreviver a esse período – e além. Provavelmente, sairemos dessa com uma sociedade muito mais digitalizada do que antes. E teremos de descobrir como atender, produzir e vender nesse novo ambiente. Com isso, não quero dizer que nós, seres humanos, seremos superados pelas máquinas. Pelo contrário. Nada substitui a proximidade e a interação com outro alguém. O mais provável é que essa interação se tornará ainda mais mediada por ferramentas digitais. Se ainda não sabemos como fazer isso, é certo que aprenderemos.

*Luiz Alexandre Garcia é Presidente do Conselho de Administração da Algar e do SindiTelebrasil


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