OPINIÃO

A era digital é o fim da TV?

Por Vanessa de Souza*
14/05/2019 ... Convergência Digital

Sempre que novas ondas tecnológicas surgem, especula-se quais hábitos de consumo e equipamentos serão postos em obsolescência. Foi assim quando o rádio e a TV surgiram, no século XX. Ambos, acreditava-se, iriam soterrar os jornais de papel e o cinema. As décadas passaram e, na essência, nenhuma destas mídias acabou, apesar de a seleção natural do mercado ter imposto adaptações ao longo do tempo.

A era da Internet e da revolução da informação faz com que as dúvidas recaiam sobre a TV aberta. As novas plataformas lastreadas na web, como o streaming, fizeram com que os telespectadores deixassem de ser meros receptores, dando-lhes o poder de dar feedbacks imediatos e, mais importante, escolher quando, onde e como consumirão seus filmes e programas.

A virada de mesa no modelo de comunicação — antes restrito ao engessado polinômio emissor-canal-receptor-feedback — leva à pergunta sobre qual é a principal marca da sociedade contemporânea frente à nova oferta de consumo de produtos de mídia.

Primeiramente, relatarei uma experiência diária, como residente no Vale do Silício, a mais famosa capital “tech” do planeta. Ao chegar em casa, ou mesmo ao receber muitos amigos que são CEOs em grandes empresas de tecnologia, a primeira coisa que fazemos é ligar o aparelho televisor e deixá-lo num tradicional programa de notícias. Note-se que, mesmo num ambiente imerso na inovação, mantém-se um hábito arraigado de tempos “ancestrais”.

A discussão sobre o entrechoque entre novos e velhos hábitos é vista sob dois prismas nas universidades americanas nos estudos de mídias digitais e entertainment law.  Por um destes primas, há fortes indícios de que os novos hábitos da era digital, apesar de assustarem os canais de televisão tradicionais, não são suficientes para decretar seu fim. Pesquisa realizada pela BBC, de Londres, nos Estados Unidos e Reino Unido aponta que ingleses e americanos se mantêm dentro da tradição de assistir TV passivamente, sintonizando os canais tradicionais sem qualquer programação prévia ou posterior.

O outro prisma vê a era digital como um fenômeno incontrolável que terá um poder de, ao longo do tempo, erodir os antigos hábitos de consumo, o que colocaria em maus lençóis os modelos de negócios das TVs tradicionais. O temor se dá principalmente por causa dos mais jovens, que conseguem acesso aos programas em streaming a partir de celulares e tablets, em trens e fora de casa, sem depender dos imóveis e “pesados” televisores. Aqui, o receptor escolhe quando quer fazer sua imersão.

Em recente pesquisa realizada pela Universidade de São Francisco, nos Estados Unidos, descobriu-se que jovens com menos de 35 anos gastam muito mais tempo no Youtube e outros serviços de vídeo sob demanda, como o Netflix. No entanto, se há esta tendência, ela ainda não chegou a níveis profundos de danos às TVs — na Inglaterra, o tempo das televisões tradicionais teve uma redução média de audiência de somente quatro minutos diários nos últimos dez anos.

Trocando em miúdos, o que vem se destacando nas conferências do Vale do Silício sobre Media and Entertainment Law é que o negócio de televisão tradicional, que se acreditava em perigo, é bastante resiliente. Ao mesmo tempo, muitos de canais digitais passaram a sentir o perigo de estar construindo um negócio em castelos em areia.

Cabe frisar que os canais tradicionais norte-americanos, outrora vistos como dinossauros após o “cataclisma” digital, estão se adaptando à seleção natural. Passaram a buscar rentabilidade com a diversificação, seja com assinaturas ou vendas de conteúdos a outros países. Passaram, elas mesmas, a contar com serviços complementares de streaming. De repente, várias empresas digitais bem financiadas, que eram vistas pelos executivos da TV tradicional como algo completamente diferente, não estão mais sozinhas.

O futuro dirá qual será o desenrolar do processo. Sabe-se, de antemão, no entanto, que sobreviverá quem tiver maior capacidade de adaptação. E claro, quem conseguir entregar o melhor conteúdo, porque, por mais que as plataformas mudem, os consumidores ainda procuram boas histórias ou programas de notícias realizados com excelência. Quem atender a este requisito, permanecerá.

Vanessa Souza é advogada no Vale do Silício, nos Estados Unidos, e no Reino Unido. É especialista em Leis de Tecnologia, privacidade de dados, crimes na internet, patentes e inovações tecnológicas, financiamento para startups, fintechs de blockchain e tecnologia aplicada no poder público. Também atua nas áreas de propriedade intelectual e contratos internacionais.

 


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